CBF e Cofen lançam campanha nacional contra a violência sofrida pela Enfermagem

CBF e Cofen lançam campanha nacional contra a violência sofrida pela Enfermagem

A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) uniram forças em uma mobilização nacional inédita para enfrentar um problema crescente e alarmante: a violência contra os profissionais de Enfermagem. A campanha Marcas da Enfermagem foi lançada oficialmente nesta semana com o objetivo de dar visibilidade às agressões sofridas por enfermeiros, técnicos, auxiliares e obstetrizes em todo o país — especialmente por mulheres que atuam na rede pública de saúde.

A ação ganhou projeção nacional ao ser exibida durante a 32ª rodada do Campeonato Brasileiro, levando aos gramados uma mensagem de conscientização e respeito. Em todos os estádios, painéis de LED e vídeos destacaram a frase que sintetiza o propósito da campanha: “Toda marca conta uma história. E a Enfermagem não pode mais carregar essas sozinha.”

Uma realidade de agressões crescentes

De acordo com levantamentos do Cofen, mais de um quarto dos profissionais de Enfermagem já foram vítimas de violência no trabalho. Os dados revelam uma realidade preocupante: 66,5% das agressões são psicológicas, seguidas de 15,6% físicas, 17,1% institucionais e 0,9% sexuais. Em grande parte dos casos, os autores das agressões são pacientes ou familiares em momentos de tensão, muitas vezes agravados por superlotação, falta de estrutura e demora no atendimento. Ver Reforma Tributária: uma nova arquitetura fiscal e os impactos diretos sobre as empresas brasileiras.

A maioria das vítimas são mulheres. Entre os relatos, são frequentes os casos de assédio, humilhação pública e intimidação verbal, situações que deixam marcas emocionais profundas e provocam afastamentos por estresse, ansiedade e depressão.
Esses episódios ocorrem com maior frequência em hospitais públicos, unidades básicas e pronto-atendimentos, onde a carência de recursos e a sobrecarga de trabalho aumentam o risco de conflitos.

Violência institucional e discriminação de gênero

A campanha também chama atenção para outras formas de violência, menos visíveis, mas igualmente graves: a violência institucional e a discriminação de gênero. Segundo o levantamento do Cofen, 44,7% dos profissionais relatam discriminação por serem mulheres, 25,3% por raça e 21,4% por peso ou aparência física.

Esses números evidenciam que o problema vai além do comportamento individual dos agressores — trata-se de uma questão estrutural, que envolve preconceitos, hierarquias abusivas e desigualdade de gênero dentro das instituições de saúde.

A Enfermagem pede proteção legal

O ponto central da campanha é a mobilização pela aprovação do Projeto de Lei 6.749/2016, que prevê o aumento das penas para crimes cometidos contra profissionais da saúde no exercício de suas funções. A proposta tramita no Senado Federal e é vista pelo Cofen como um passo decisivo para garantir respeito, segurança e valorização à categoria.

“É inaceitável que quem cuida da vida seja vítima de violência. Precisamos de leis mais duras e de uma sociedade mais consciente”, afirmou o presidente do Cofen, Manoel Neri, durante o lançamento da campanha. Ele destacou ainda que a violência contra a Enfermagem é uma ferida aberta que precisa ser tratada com urgência.

Futebol e saúde unidos por uma causa social

A parceria entre CBF e Cofen tem um significado simbólico e estratégico. Ao levar o tema para o maior espetáculo esportivo do país, o Brasileirão, a mensagem da campanha alcança milhões de brasileiros de todas as idades e classes sociais.
Durante as partidas, vídeos e mensagens foram exibidos nos telões dos estádios, e jogadores de vários clubes entraram em campo com braçadeiras e faixas em homenagem aos profissionais da Enfermagem.

O gesto representa uma forma de empatia e reconhecimento a uma categoria que, durante a pandemia de COVID-19, mostrou coragem e dedicação excepcionais. A campanha busca resgatar essa valorização e transformá-la em compromisso social permanente.

O impacto emocional e profissional das agressões

As marcas deixadas pela violência vão muito além do corpo. Elas afetam a autoestima, o desempenho profissional e a qualidade do cuidado oferecido à população. Muitos profissionais relatam medo de voltar ao trabalho e sensação de desamparo diante da falta de punição aos agressores.
Segundo o Cofen, 40,1% dos profissionais não se sentem protegidos no ambiente institucional, e apenas 29% afirmam se sentir seguros no trabalho diário.

Em 2024, o caso de uma enfermeira agredida dentro de uma UPA em Belo Horizonte por um paciente revoltado com a demora no atendimento repercutiu em todo o país. O episódio gerou protestos e uma campanha regional de apoio à Enfermagem. Casos semelhantes em São Paulo, Recife e Manaus também chamaram a atenção para a falta de segurança nas unidades de saúde.

Ações de apoio e desagravo público

O Cofen e os Conselhos Regionais de Enfermagem têm intensificado ações de apoio jurídico, acolhimento psicológico e desagravo público às vítimas. O Desagravo Público, amparado pela Resolução Cofen nº 774/2025, é uma ferramenta simbólica que reafirma o compromisso do Conselho com a defesa da dignidade da categoria.
Essas ações visam restaurar a confiança dos profissionais e estimular denúncias, rompendo o silêncio que muitas vezes encobre situações de abuso e humilhação.

Além disso, os Conselhos vêm promovendo campanhas educativas sobre prevenção da violência, ética profissional e canais de denúncia, com o lema “Não normalize. Denuncie.”

A responsabilidade das instituições de saúde

A campanha destaca ainda o papel das gestões hospitalares e das comissões de ética. Para combater a violência, é essencial que as instituições criem ambientes de apoio, ofereçam canais seguros de denúncia e promovam diálogo permanente entre gestores e equipes.
O Cofen defende que a cultura do respeito e da segurança deve ser incorporada à rotina das unidades, com treinamentos e políticas de tolerância zero à violência.

Uma luta que também é das mulheres

A Enfermagem é uma profissão majoritariamente feminina — cerca de 85% da categoria é composta por mulheres. Por isso, a campanha também tem um recorte de gênero muito forte.
As agressões sofridas refletem não apenas a precarização do trabalho na saúde, mas também o machismo estrutural que ainda permeia o setor. Ao dar visibilidade às histórias dessas profissionais, o Cofen busca transformar dor em resistência e sofrimento em mobilização.

Um chamado à sociedade

A campanha Marcas da Enfermagem é mais que um alerta — é um convite à reflexão coletiva.
O respeito aos profissionais de saúde precisa ser um valor social. A população deve compreender que agredir um profissional é agredir o próprio sistema de saúde, comprometendo o cuidado de todos.

O Cofen reforça que a violência contra a Enfermagem é uma violência contra a vida. Cada marca, física ou emocional, é o reflexo de um sistema que precisa mudar.
Com o apoio da CBF, dos Conselhos Regionais e da sociedade civil, a campanha segue em frente com o propósito de fortalecer a proteção, exigir justiça e promover a valorização de quem cuida do Brasil.

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